sábado, 3 de agosto de 2013

------------------------------- exposição: notas sobre naufrágios

Que paisagens são estas que nos desconcertam? Parecem tormentas, se assemelham a visões de tempestades, algumas como se fossem em alto mar. E, no entanto, fogem a qualquer possibilidade de rápida identificação, configurando enigmas. Na série de fotografias que apresenta em Notas sobre naufrágios, André Santangelo elabora discurso pictórico dominado por efeitos dramáticos, que tendem a lançar o expectador rumo à experiência do deslumbramento.    

Ao se aproximar da sintaxe da pintura, mas fazendo uso da fotomontagem, o artista explora a dissolução dos limites dos meios na arte contemporânea para construir imagens que simulam paisagens naturais. Vislumbres que falam mais de emoção do que de representação, elas resultam de elaborado trabalho de junção de fotografias tomadas em tempos e espaços diferenciados.

Como os contornos são imprecisos, pouco percebemos a colagem efetuada. O que vemos mais nitidamente são quebra-cabeças ancorados em especial mecânica da luz. Santangelo concentra a escala cromática no preto e branco, dialética entre claro e escuro, acrescida no máximo por tons amarelados. Com recursos tão reduzidos e concentrados na dualidade luz e sombra, ele consegue obter um aspecto sombrio, que sugere às imagens à carga de violência inerente às catástrofes da natureza.   

As estratégias do artista evocam anotações feitas por um naufrago. Recorre a fragmentos, amontoados de restos que, reunidos, servem para compor cenários. Ele se desfaz de materiais que foram usados em exposições anteriores – linhas, pregos, tecidos –, recortes de pinturas e pedaços de molduras. Arranja-os sobre colchão coberto com lençol branco, superfície rugosa, ondulada. No lugar de retratá-los em tela e tintas, técnica com a qual também tem intimidade, o artista decide fotografá-los. Com máquina digital, enquadra a cena, como se fosse um mundo surreal, fantástico, o que proporciona atmosfera de sonho.

Santangelo nasceu na litorânea Rio de Janeiro, mas vive há anos em Brasília, a capital brasileira construída em meio ao Sertão, planejada a partir de escalas arquitetônicas e urbanas que destacam o céu, realçando as cores  fortes e intensas do Planalto tropical. Somos costumeiramente inundados por azuis, vermelhos, roxos, alaranjados, rosas e amarelos, em gradações de diferentes matizes e movimentos arrebatadores, de espetacular beleza. O artista tem o hábito de fotografar essa que é a nossa paisagem natural mais impressionante, tão carregada de sentidos a ponto de os habitantes da cidade dizerem, poeticamente, “o céu é o mar de Brasília”. Só que, contrariando expectativas, ele prefere registrar as tonalidades e os volteios do espaço aéreo em preto e branco.

De posse de fotos em que a atmosfera arrebatadora do céu faz-se superior à topologia e também daquelas oriundas das cenas produzidas artificialmente, o artista trabalha no computador a fusão das duas imagens. Em apenas três das fotos que compõem a exposição, no lugar do céu, ele usa imagens de água – mar ou lagoa. Mas em todas as obras expostas, consegue valorizar a superfície coesa, eliminando quase por completo a cicatriz da junção. Mantém assim o código inerente à leitura fotográfica, sugerindo ser aquela a imagem de uma só situação. O olho apressado não consegue perceber a zona de transparência que se instala entre as duas imagens, pois é mínima a diferença que se observa na textura da fotografia impressa e ampliada.

Ao colocar algumas das fotos no chão da galeria, outro deslocamento é proposto pelo artista. O espectador é convidado a navegar sobre as imagens do céu e do colchão fusionadas, invertendo a ordem costumeira que é a de mirar o céu olhando para o alto. Na tensão entre iguais que se estabelece entre alto e baixo, entre luz e sombra, material e imaterial, as imagens alteram perspectivas e se tornam ainda mais carregadas de dramaticidade.  

Ao olhar a série de fotografias instaladas na Galeria Colorida, reminiscências da tradição artística podem nos assaltar. A lembrança das paisagens marítimas de William Turner (1775-1851) demonstra que procedimentos artísticos podem ser novos, mas raramente deixam de ter vinculação com o passado. Santangelo disse-me que se sentiu arrebatado pela engenhosidade e força das pinturas do artista oitocentista, durante visita a Tate Gallery, em Londres. Foi impelido a ver a mesma exposição três vezes. A partir daí, começou a se sentir ainda mais desafiado a pensar a questão da paisagem em seus trabalhos.

Parte do resultado de suas pesquisas e inquietações está expresso nesse jogo ilusório que envolve a série de fotografias situadas entre a paisagem natural e a construída. Imagens que induzem à desconfiança sobre o que vemos, e nos fazem perder, ainda que momentaneamente, referências objetivas daquilo que se designa realidade. Indefesos em meio a tormentas, agradecemos por estar no território da arte.  

                                                                                  Graça Ramos


                                               Doutora em História da Arte pela Universidade de Barcelona

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores